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Especiais

25/10/2017 ás 12h59

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Maria Mandú

Guaíra / SP

Acuda-nos, por favor!
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Acuda-nos, por favor!

Há muito tempo, em um lugar não tão longe daqui ocorreu um grande incêndio cujas labaredas destruíram boa parte da mata.


Uma onça pintada, um lobo guará, um tatu bola, uma cobra coral e um lagarto teiú sem terem para onde fugir, foram ter à entrada de uma aldeia Guarani e se puseram a chamar o cheramoy, que tinha fama de ser um homem muito bondoso.



- Irmão! Irmão! Irmão! Acuda-nos, por favor! (eles gritavam)


O cheramoy tendo ouvido o pedido de ajuda, deixou sua rede e foi ter com eles.


- Em que posso ajudar, perguntou.


Irmão... nossa casa pegou fogo! Não temos para onde ir! Não temos abrigo e nem o que comer! Gostaríamos de passar um tempo cá com sua gente e contar com a bondade de vocês.


O cheramoy carinhosamente se achegou até eles, os abraçou com muita ternura e em seguida os guiou para o centro da taba. Chamou o cacique e os anciãos da aldeia para expor a triste situação dos amigos da floresta, vitimados pelo grande incêndio.


Após muita discussão, ficou acordado que os animais poderiam ficar por um tempo na aldeia, pelo menos até que as chuvas beijassem novamente a terra, apagasse por completo o fogo e as plantas voltassem a crescer e ficarem verdes. Enquanto isso não ocorresse, eles receberiam abrigo e comida.


Um dia, o cheramoy teve que visitar uma aldeia distante para ajudar na cura de uma pessoa que havia contraído uma doença. Quando fazia a trilha de volta para a aldeia, deu de cara com o lobo guará, a onça pintada, o tatu bola e a cobra coral que vinham correndo em sua direção!


- Acuda irmão! Acuda!


- Mas o que houve com vocês, perguntou o cheramoy muito preocupado.


- Ah irmão... quando você foi viajar, os homens da aldeia foram pescar em um rio distante e levaram com eles as mulheres e as crianças menorzinhas para banhar. Ocorre, que deixaram alguns curumins para cuidar da gente, mas ao invés disso eles nos acusaram de estar passando fome por conta de terem que dividir a comida conosco, daí começaram a nos dar pauladas e jogar pedras. Para não machucar os meninos da aldeia (afinal eram só crianças), fugimos! Só agora demos conta que o lagarto teiú não fugiu com a gente.


Ouvindo isso, o cheramoy apressou o passou e foi ter rapidamente na aldeia. De longe, ouviu a gritaria infernal dos meninos. Oh dó! Chegou e viu o pobre do lagarto encolhidinho no canto, já com os olhinhos fechados e ainda recebendo nas costas pedras e pauladas.


Com um grito lascinante de dor, o cheramoy correu e tomou para si o lagarto do chão! Não podia crer que aquilo estivesse acontecendo.


Segurando o lagarto carinhosamente junto ao peito, ele partiu da aldeia chorando copiosamente, nem olhou para trás. Nunca mais voltou! Ainda hoje dizem que o espírito dele caminha pelas matas levando nos braços seu amigo lagarto e na companhia de uma onça pintada, um tatu bola, um lobo guará e uma cobra coral.


Com seu grande poder, o cheramoy toca em espírito os corações das crianças guaranis. Faz delas protetoras incondicionais de tudo que inspira e expira. Dizem que é por isso que o Povo Guarani sente no coração um amor infinito pelas criaturas e só se sente feliz e em paz morando no coração da mata.


Estória contada por Fátima Guimarães, inspirada em uma experiência real que o amigo Hildegar Barreto (descendente do Povo Guarani M'bya) vivenciou recentemente.


FONTE: Fátima Guimarães

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